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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Buda é feito de elementos não-Buda - Thich Nhat Hanh


Foto: Buda é feito de elementos não-Buda

"Consequentemente, na vacuidade não há nem forma, nem sentimentos, nem percepções, nem formações mentais, nem consciência; nem olho, ou ouvido, ou nariz, ou língua, ou corpo,  ou mente; nem forma, nem som, nem cheiro, nem sabor, nem tato, nem objeto da mente; nem âmbitos de elementos (dos olhos até a consciência mental), nem originações interdependentes e nem a extinção delas (da ignorância até a velhice e morte); nem sofrimento, nem origem do sofrimento, nem extinção do sofrimento, nem caminho, nem compreensão, nem realização." 

Esta frase começa com a confirmação de que os cinco skandhas são todos vazios.  Não podem existir por si mesmos. Cada um tem de interser com todos os outros skandhas. 

A próxima parte da frase é uma enumeração dos dezoito âmbitos de elementos (dhatus).  Primeiro temos os seis órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente. Então há seis objetos dos sentidos: forma, som, cheiro, sabor, tato, e objetos mentais. A forma é o objeto dos olhos, o som é o objeto dos ouvidos, e assim sucessivamente. Finalmente, o contato entre estes primeiros doze promove o surgimento das "seis consciências": visão, audição, e até a última consciência mental. Assim, com os olhos como primeiro âmbito dos elementos e a consciência mental como décimo oitavo, esta parte do sutra está dizendo que nenhum destes âmbitos pode existir por si mesmo, porque cada um pode apenas interser com todos os outros âmbitos. 

A parte seguinte fala dos doze elos da originação interdependente (pratitya samutpada), que iniciam pela ignorância e terminam com a velhice e morte. O significado no sutra é que nenhum destes doze elos pode existir. Cada um pode se fiar apenas na existência dos outros para poder existir. Consequentemente, todos eles são vazios, e devido a isto é que eles podem realmente existir. O mesmo princípio é aplicável às Quatro Nobres Verdades: nem sofrimento, nem origem do sofrimento, nem caminho (para a extinção do sofrimento). O último item da lista é nem compreensão, nem realização. Compreensão (prajna) é a essência de um Buda: "Nem compreensão" significa que a compreensão não tem uma existência separada. A compreensão é feita de elementos não-compreensão,  assim como o Buda é feito de elementos não-Buda. 

Eu quero contar a vocês uma história sobre Buda e Mara* (*Mara: demônio, a ilusão). Um dia o Buda estava em sua caverna e Ananda,  que era assistente do Buda, estava de pé do lado de fora guardando a entrada.  De repente,  Ananda viu Mara aproximando-se. Ele ficou surpreso. Ele não queria aquilo e desejou que Mara sumisse. Porém, Mara seguiu direto para Ananda e pediu-lhe que anunciasse sua visita ao Buda. 

Ananda disse: "Por que você veio aqui? Você não se lembra que nos velhos tempos você foi derrotado pelo Budas sob a árvore Bodi? Você não tem vergonha de vir aqui? Vá embora! O Buda não o receberá. Você é mau. Você é inimigo dele." Quando Mara ouviu isto, começou a rir muito. "Você disse que seu mestre falou que tinha inimigos?" Aquilo deixou Ananda muito embaraçado. Ele sabia que o seu mestre nunca falara em ter inimigos. Assim, Ananda foi derrotado e teve de entrar para anunciar a visita de Mara, esperando que o Buda pudesse dizer: "Vá e diga a ele que não estou aqui. Diga que estou numa reunião". 

Contudo, Buda ficou muito animado quando ouviu que Mara, um tão velho amigo, tinha vindo visitá-lo. "É isto verdade? Ele está mesmo aqui?" disse o Buda, e saiu pessoalmente para cumprimentar Mara. Ananda ficou muito perturbado. O Buda foi direto até Mara, fez-lhe uma reverência e pegou suas mãos da forma mais calorosa. O Buda disse: "Olá! Como está você? Como tem passado? Está tudo bem com você? 

Mara não disse coisa alguma. Então, o Buda trouxe-o para o interior da caverna, preparou-lhe um lugar para sentar e disse a Ananda para ir fazer um chá de ervas para ambos. "Eu posso preparar chá para o meu mestre cem vezes por dia, mas preparar chá para Mara não é nada agradável", pensou Ananda consigo. Mas, desde que era este o pedido do seu mestre,  como poderia recusar-se? Então, Ananda foi preparar um pouco de chá de ervas para o Buda e seu assim chamado hóspede, porém, enquanto fazia isto, ele tentou escutar a conversa deles. 

O Buda repetiu muito calorosamente "Como você tem passado? Como vão indo as coisas para você?" E Mara disse: "As coisas não vão nada bem. Eu estou cansado de ser um Mara. Eu quero ser outra coisa." 

Ananda ficou muito assustado. Mara prosseguiu: "Você sabe, ser um Mara não é uma coisa muito fácil. Se você fala, você tem de falar enigmaticamente. Se você faz qualquer coisa, você tem de ser ardiloso e parecer perverso. Eu estou muito cansado de tudo isso. Mas o que eu não consigo suportar são os meus discípulos. Agora eles estão falando sobre justiça social, paz, igualdade, liberação, não-dualidade,  não violência e tudo mais. Já estou cheio disto! Eu acho que seria melhor se eu mandasse todos para você. Eu quero ser outra coisa." 

Ananda começou a tremer porque ficou com medo que seu mestre decidisse trocar de papéis. Mara se tornaria o Buda e o Buda se transformaria em Mara. Isto o deixou muito triste. 

O Buda escutou atentamente e se encheu de compaixão. Finalmente, ele disse suavemente: "Você acha que é divertido ser um Buda? Você não imagina o que meus discípulos tem feito a mim!  Eles põem palavras em minha boca que eu jamais pronunciei. Eles constroem templos por demais vistosos e colocam estátuas minhas em altares para atrair bananas, laranjas e arroz doce, para se fartarem apenas a si mesmos. Eles me empacotam e fazem do meu ensinamento um item de comércio. Mara, se você soubesse o que realmente é ser um Buda, eu estou certo de que você não gostaria de ser um." E, depois disso, o Buda recitou um longo verso sintetizando a conversação. 

Excerto de "O Coração da Compreensão, Comentários ao Sutra do Coração - Prajnaparamita Sutra",  Thick Nhat Hanh."Consequentemente, na vacuidade não há nem forma, nem sentimentos, nem percepções, nem formações mentais, nem consciência; nem olho, ou ouvido, ou nariz, ou língua, ou corpo, ou mente; nem forma, nem som, nem cheiro, nem sabor, nem tato, nem objeto da mente; nem âmbitos de elementos (dos olhos até a consciência mental), nem originações interdependentes e nem a extinção delas (da ignorância até a velhice e morte); nem sofrimento, nem origem do sofrimento, nem extinção do sofrimento, nem caminho, nem compreensão, nem realização."

Esta frase começa com a confirmação de que os cinco skandhas são todos vazios. Não podem existir por si mesmos. Cada um tem de interser com todos os outros skandhas.

A próxima parte da frase é uma enumeração dos dezoito âmbitos de elementos (dhatus). Primeiro temos os seis órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente. Então há seis objetos dos sentidos: forma, som, cheiro, sabor, tato, e objetos mentais. A forma é o objeto dos olhos, o som é o objeto dos ouvidos, e assim sucessivamente. Finalmente, o contato entre estes primeiros doze promove o surgimento das "seis consciências": visão, audição, e até a última consciência mental. Assim, com os olhos como primeiro âmbito dos elementos e a consciência mental como décimo oitavo, esta parte do sutra está dizendo que nenhum destes âmbitos pode existir por si mesmo, porque cada um pode apenas interser com todos os outros âmbitos.

A parte seguinte fala dos doze elos da originação interdependente (pratitya samutpada), que iniciam pela ignorância e terminam com a velhice e morte. O significado no sutra é que nenhum destes doze elos pode existir. Cada um pode se fiar apenas na existência dos outros para poder existir. Consequentemente, todos eles são vazios, e devido a isto é que eles podem realmente existir. O mesmo princípio é aplicável às Quatro Nobres Verdades: nem sofrimento, nem origem do sofrimento, nem caminho (para a extinção do sofrimento). O último item da lista é nem compreensão, nem realização. Compreensão (prajna) é a essência de um Buda: "Nem compreensão" significa que a compreensão não tem uma existência separada. A compreensão é feita de elementos não-compreensão, assim como o Buda é feito de elementos não-Buda.

Eu quero contar a vocês uma história sobre Buda e Mara* (*Mara: demônio, a ilusão). Um dia o Buda estava em sua caverna e Ananda, que era assistente do Buda, estava de pé do lado de fora guardando a entrada. De repente, Ananda viu Mara aproximando-se. Ele ficou surpreso. Ele não queria aquilo e desejou que Mara sumisse. Porém, Mara seguiu direto para Ananda e pediu-lhe que anunciasse sua visita ao Buda.

Ananda disse: "Por que você veio aqui? Você não se lembra que nos velhos tempos você foi derrotado pelo Budas sob a árvore Bodi? Você não tem vergonha de vir aqui? Vá embora! O Buda não o receberá. Você é mau. Você é inimigo dele." Quando Mara ouviu isto, começou a rir muito. "Você disse que seu mestre falou que tinha inimigos?" Aquilo deixou Ananda muito embaraçado. Ele sabia que o seu mestre nunca falara em ter inimigos. Assim, Ananda foi derrotado e teve de entrar para anunciar a visita de Mara, esperando que o Buda pudesse dizer: "Vá e diga a ele que não estou aqui. Diga que estou numa reunião".

Contudo, Buda ficou muito animado quando ouviu que Mara, um tão velho amigo, tinha vindo visitá-lo. "É isto verdade? Ele está mesmo aqui?" disse o Buda, e saiu pessoalmente para cumprimentar Mara. Ananda ficou muito perturbado. O Buda foi direto até Mara, fez-lhe uma reverência e pegou suas mãos da forma mais calorosa. O Buda disse: "Olá! Como está você? Como tem passado? Está tudo bem com você?

Mara não disse coisa alguma. Então, o Buda trouxe-o para o interior da caverna, preparou-lhe um lugar para sentar e disse a Ananda para ir fazer um chá de ervas para ambos. "Eu posso preparar chá para o meu mestre cem vezes por dia, mas preparar chá para Mara não é nada agradável", pensou Ananda consigo. Mas, desde que era este o pedido do seu mestre, como poderia recusar-se? Então, Ananda foi preparar um pouco de chá de ervas para o Buda e seu assim chamado hóspede, porém, enquanto fazia isto, ele tentou escutar a conversa deles.

O Buda repetiu muito calorosamente "Como você tem passado? Como vão indo as coisas para você?" E Mara disse: "As coisas não vão nada bem. Eu estou cansado de ser um Mara. Eu quero ser outra coisa."

Ananda ficou muito assustado. Mara prosseguiu: "Você sabe, ser um Mara não é uma coisa muito fácil. Se você fala, você tem de falar enigmaticamente. Se você faz qualquer coisa, você tem de ser ardiloso e parecer perverso. Eu estou muito cansado de tudo isso. Mas o que eu não consigo suportar são os meus discípulos. Agora eles estão falando sobre justiça social, paz, igualdade, liberação, não-dualidade, não violência e tudo mais. Já estou cheio disto! Eu acho que seria melhor se eu mandasse todos para você. Eu quero ser outra coisa."

Ananda começou a tremer porque ficou com medo que seu mestre decidisse trocar de papéis. Mara se tornaria o Buda e o Buda se transformaria em Mara. Isto o deixou muito triste.

O Buda escutou atentamente e se encheu de compaixão. Finalmente, ele disse suavemente: "Você acha que é divertido ser um Buda? Você não imagina o que meus discípulos tem feito a mim! Eles põem palavras em minha boca que eu jamais pronunciei. Eles constroem templos por demais vistosos e colocam estátuas minhas em altares para atrair bananas, laranjas e arroz doce, para se fartarem apenas a si mesmos. Eles me empacotam e fazem do meu ensinamento um item de comércio. Mara, se você soubesse o que realmente é ser um Buda, eu estou certo de que você não gostaria de ser um." E, depois disso, o Buda recitou um longo verso sintetizando a conversação.

Excerto de "O Coração da Compreensão, Comentários ao Sutra do Coração - Prajnaparamita Sutra", Thick Nhat Hanh.

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